quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poetrix (Conjunto)


Quem me Dera! (Poetrix) 
Passarinhos competem -
parece tão mais gostosa
a goiaba da vizinha.

Tulipa (Poetrix)
No meu chopp da tarde
que tão rápido esquentou
sinal que esse verão promete

Planta de Cheiro (Poetrix)
Jardim noturno -
bom amante regozija
Dama-da-Noite em flor.

Funeral
Silêncio eterno -
sobre o mármore da lápide
o frio das flores de plástico.

Jardim
Coroa de espinhos -
oscila no galho
o abacaxi maduro
 
Aeróbica (Poetrix)
Lua diurna
caminho um quarteirão a mais
novo circuito.

Camuflagem (Poetrix)  
O inconcluso muro -
no húmus ajuntado no canto
brota a amendoeira.
 
Cashemir (Poetrix)
Tardou a vir este ano,
mas de súbito, por todos os ossos -
Inverno!

Nordeste
Rebanho de ovelhas -
A alegria das chuvas
no corre-corre dos filhotes.

Maldita (Poetrix)
Às cinco da tarde
o cheiro de erva
atravessa o imaginário.

Sete em Ponto (Poetrix)
O sol pousou
na linha do horizonte derramada
um cálice de vinho.

Única (Poetrix)  
À luz da lua
a cor solitária
da flor de mandacaru.

Sol(da) Idade (Poetrix)
O sol nasce
sobre os coqueiros do passado -
Ah, meus vinte anos!
 
Cortesia (Poetrix)
O vento parou.
O dia num instante volta
a ser bom-dia.

Amor Zunido (Poetrix)
Cena de sexo explícito:
no encaixe do vôo,
duas moscas!

Greentrix (Poetrix)
Após a aguada das quatro -
o verde “vessie”
das folhas de mato.
 
Papo Furado (Poetrix)
Trocador de ônibus:
- Meu avô também, aos domingos,
me ensinava o Maracanã!

Som do Tempo (Poetrix)
Ruído de granizo
no cimentado da cisterna -
Que frio barulhento!

Lembranças Outras
Tardes em Rio das Ostras:
Jandaias e Tuins
voando assim-assim...

Visual (Poetrix)
À vista do mirante
saindo de trás do morro
a lua quarto - minguante.
 
Roe(dor) (Poetrix)
Até as ratazanas
vão ficando bacanas -
como a solidão é ingrata!
 
Ototrix (Poetrix)
Os bem-te-vis cantam
Somente pro meu lado direito...
Ah, trompa de Eustáquio!
 
No Espeto (Poetrix)
Também para ele
está chegando o dia do churrasco -
Caramba, boizinho!
 
Muito Pelo Contrário (Poetrix)
Crescem mais pêlos
nas minhas narinas -
coisas de solteiro.
  
Sungarina (Poetrix)
Manhã de sol -
com a sunga, visto
saudades de Marina
 
Pinga-pinga (Poetrix)
A chuva apertou
no silêncio dos pássaros,
Olha a goteira!
 
Racionamento (Poetrix)
As andorinhas
no banho de chuva:
está faltando água no ninho...

Apelo Infantil (Poetrix)
Carro imundo -
menino sabido, escreve:
"lave-me", no vidro.
  
Fotografia (Poetrix)
Quando sol e chuva -
entre as lacunas das nuvens
surge o arco-íris...

Estandarte de Ouro (Poetrix)
Até a velha mangueira
parece contente -
Viva a Estação Primeira!

Visão (Poetrix)
A lagoa da janela
começa a oeste do motel -
A noite de afogar o ganso.

Cipreste (Poetrix)
Sob o dia finado
o cemitério plantado de
falsa-árvore-da-vida.
 
Não Adianta Chorar (Poetrix)
No meio do pasto
com o leite cremoso
a vaca morta.

De Ponta-Cabeça (Poetrix)
Quando me canso de olhar
o céu, planto bananeiras
no chão.

Alarme Burlesco (Poetrix)
O portão bate -
Ao seu lado direito,
o passarinho de pilha chia.

Degradação (Poetrix)
Na praia, na orla -
até a água-viva
parece morta.
 
Bucólico (Poetrix)
Entre os berros do cabrito
e o vento do colonião
nasce a lua de algodão

Própolis (Poetrix)
Não há mais mel
e os zangões se ocupam
em agradar a rainha.

Décimo Terceiro (Poetrix)
Os grilos cantam
"Jingle Bell" -
gratificação de natal

Matemática do Campo (Poetrix)
Pasto rural -
a única geometria espacial
É a esfera do sol

Tempos que não Voltam Mais (Poetrix)
Alojamento de adolescentes -
e depois a saudade roxa
dos bacanais...
 
Parto (Poetrix)
Não sei bem se é minha
mas tenho que exclamar:
Caluda! Está nascendo a plantinha...

"V" (Poetrix)
Num olhar supremo
as gaivotas migrantes
são um triângulo escaleno.

Mal Sintoma (Poetrix)
No caminho da montanha
Surge, no fumante inveterado
o sentimento da asfixia.
 
Cultura
Entre as parabólicas
e os telhados todos idênticos
...cogumelos!
 
Região dos Lagos (Poetrix)
Estrada engarrafada -
os homens e as máquinas
lentos, em fila quíntupla.

Exorbitante (Poetrix)
No balcão: "Quanto custa?"
mas no caixa...
"Vai roubar pra ser preso!"
 
Alto Verão (Poetrix)
Mesmo torrada
permanece até o pôr-do-sol
o biquíni estampado

Bat-trix (Poetrix)
Ao clarão do dia -
fechado como um guarda-chuva
o morcego e seu ego.

Fora de Rota (Poetrix)
Estação abandonada
sufocada entre dormentes:
Aldeiota da minha namorada.
  
Costa Verde (Poetrix)
Águas todas roladas -
nas cachoeiras de Itacuruçá
como é bom estar lá!

Paradoxo (Poetrix)
Cento e setenta quilômetros
mais ou menos amostra
Rio das Ostras, sem ostras!

Muito Prazer! (Poetrix)
Pelo retrovisor da "pick-up":
pessoas conhecidas
que a minutos atrás nunca vi

Ex-faculdade (Poetrix)
Cidade Rural -
até o esterco pra pisar
no mesmo lugar 

Sonhar Não Custa Nada (Poetrix)
O frio congela.
De quando em vez
sonho a lareira

Encardido (Poetrix)
Não chove há dias:
no ar deslavado, os muros
parecem mais “gris”

Gratidão (Poetrix)
O mar azul e verde
e um chopp gelado,
como não dizer: Obrigado!

Yellowtrix (Poetrix)
Borboleta amarela. Entre
as flores de aguapé
brinca de amarelinha.
 
Velho Micreiro (Poetrix)
Quem não
Se conecta...
Se deflecta.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lógica de Árvore

traída
a amendoeira abatida
observa que
o cabo do machado
também é de madeira.

Coisa de Brejo

Fui criado ao estilo antiqualha
ao estilo da vara de marmelo
ao estilo dos Tarcitanos:

para namorar, noivar, casar

tudo bem, tudo lindo...
(coisa de brejo)
mas como todo sapo
gosto de dar meus pulinhos!

Eu te Quero

Eu te quero
desleal corrigenda ao reverso
te quero cedo
antes das cinco
de “chico”
quero-te
porque és delito.

Eu te quero
da minha maneira esdrúxula
te quero bem
te quero mal
te quero não importa como
e sexy e tal.

Eu te quero
por hábito
hálito
períneo
afeição
e te quero por mania
porque não há saída
e o perigo me faz sina.

Eu te quero
de letra
de bico
na trave
gemedeira
juro que te quero
por puro piti maroto
e por qualquer engodo.

Eu te quero
anti-sísmica
em outro tempo
fora do ar
te quero chuviscada
sem sinal
entregue aos gritos
de ver-te chorando na rama
os mililitros
das minhas glândulas.

Eu te quero
súdita
de programa
alugada
te quero sem dramas
sem taxas
sem cobrar minha tarifa
em amor
(na verdade, eu te quero mesmo
é fazendo um obséquio!).

Eu te quero
fêmea
sarna
infecta
te quero de vez em quando
(que sempre, me mata!)
te quero também porque
não valho nada.

Eu te quero
fora do ar
dos instrumentos
de tudo que flutua
e se fura
e te quero aos espasmos:
gemidos são rimas
no meu verso pleonasmo.

Eu te quero
como um bordão
um vício
um solstício
digo que te quero
como quem não quer
e querendo, não querendo
vou à noite alada
buscando-te na rua.

Sintetizando:
eu te quero
(se não me iludo)
e quero ver
que outro tolo
te quer tão desnudo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Estrelas

Brilhantes refletem 
No azul veludo
tão belas estrelas.

Na areia começam a chegar
As sombras da noite
Deito-me sobre elas.

Um a um
Vêm chegando
Poetas tantos
Que já nem sei
Se são as estrelas do céu urgentes
Ou estrelas-do-mar
Dos quatro cantos.



Flor Abatida




Por que estás
tão alquebrado
Assim, jasmim?

Que beija-flor
Desavisado
Sorveu teu néctar
no jardim?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Divã Inusitado

Escreva um livro bem acolchoado
Estofado
Suave ao tato
Brando.

Decore a capa
com peixinhos
novelos de lã
e ratinhos.

Se o conteúdo não agradar
Não se deprima
servirá de divã
para o seu gatinho.