quinta-feira, 7 de abril de 2011

Qualquer Versinho


  - Fale-me acerca do coração -
diz o leitor,
como se esse tema
fosse singelo.

Do coração? - Me divirto
à larga. Logo
o leitor teima:
- Discorra sobre o coração -
sem perceber, inocente,
que este assunto
é martelo.

Dissecar o coração? - Retruco:
Qual a tua intenção? Acho
deseja me fazer andar
no arame do trapézio
sem rede em baixo!

- Não faz jogo duro... - Persevera imediato.
- Qualquer versinho.
Como se ao coração coubesse
- qualquer versinho -
feito em folha de mamão-macho.

Escreva bonito, escreva feio,
um poeminha "n'importe quoi"
- o leitor insiste, como se desconhecesse
que as coisas do coração
não vêm embrulhadas com um laço no meio.

O sujeito interrogando
eu contradizendo
posto nas searas do coração
e da poesia
qualquer verão mal avisado
é veraneio.


sexta-feira, 18 de março de 2011

Foutro e Feu

créditos: http://br.olhares.com/sol_poente_foto1734350.html


Tem um outro alguém morando em mim
Que é exatamente o meu avesso:
Trabalho todos os dias, o outro é à toa
Tenho meus limites, o outro é espaçoso
Trato bem o amor, o outro engana bem
Não perturbo ninguém, o outro é um saco
Sou interessante, o outro é babaca
Bebo socialmente, o outro é alcoólatra
Só faço sexo seguro, o outro não se segura
Sou poeta, ele poente
Aquele que me faz irado e descontente
Sempre foutro, nunca feu.


OBS: Essa poesia foi musicada pela “BANDA MANOA”
Canção disponível em: http://palcomp3.com/manoa/
 

quarta-feira, 2 de março de 2011

Léxico da Cachaça


 
“Cachorro que morde o dono
Mulher que erra uma vez
Homem que toma cachaça
Não há remédio pros três”

Verbete: Cachaça

ABRE, ABRIDEIRA, ACA, AÇO, A-DO-Ó, ÁGUA-BENTA, ÁGUA-BRUTA, ÁGUA-DE-BRIGA, ÁGUA-DE-CANA, ÁGUA-QUE-PASSARINHO-NÃO-BEBE, AGUARDENTE, AGUARRÁS, ALPISTA, ANINHA, ARREBENTA-PEITO, ASSOVIO-DE-COBRA, AZULADINHA, BAGACEIRA, BARONESA, BICHA, BICO, BIRITA, BOA, BORESCA, BRANCA, BRANQUINHA, BRASA, BRASILEIRA, CAIANA, CALIBRINA, CAMBRAIA, CANA, CÂNDIDA, CANGUARA, CANHA, CANINHA, CANJEBRINA, CANJICA, CAPOTE-DE-POBRE, CATUTA, CAXARAMBA, CAXIRI, COBREIRA, COTRÉIA, CUMBE, CUMULAIA, DANADA, DELAS-FRIAS, DENGOSA,  DESMANCHA-SAMBA, DINDINHA, DONA-BRANCA, ELA, ELIXIR,  ENGASGA-GATO, ESPÍRITO, ESQUENTA-POR-DENTRO, FILHA-DO-SENHOR-DE-ENGENHO, FRUTA, GÁS, GIRGOLINA, GORÓ, GRAMÁTICA, GUAMPA, HOMEOPATIA, IMACULADA, JÁ-COMEÇA, JANUÁRIA, JERIBITA, JINJIBIRRA, JUNÇA, JURA, LEGUME, LIMPA, LINDINHA-LISA, MACANGANA, MALUNGA, MALVADA, MAMÃE-DE-ALUANA, MAMÃE-SACODE, MANDRUREBA, MARAFO, MARIA-BRANCA, MATA-BICHO, MEU-CONSOLO, MISCORETE, MOÇA-BRANCA, MORRÃO,  NÃO-SEI-QUÊ, ÓLEO, OROTANJE, OTIM, PANETE, PARATI, PATRÍCIA, PERIGOSA, PEVIDE, PILÓIA, PINGA, PIRITIBA, PREGO, PORONGO, PURA, PURINHA, QUEBRA-GOELA, QUEBRA-MUNHECA, RAMA, REMÉDIO, RESTILO, RETRÓS, ROXO-FORTE, SAMBA, SETE-VIRTUDES, SINHANINHA, SINHAZINHA, SÍPIA, SIÚBA, SUOR-DE-ALAMBIQUE, SUPUPARA, TAFIÁ, TEIMOSA, TEREBINTINA, TIRA-TEIMA, TIÚBA, TOME-JUSTO, TRÊS-MARTELOS, UCA, VENENO, XINAPRE, ZUNINGA. 

Cachaça, Patrimônio Público Brasileiro
Deve ser tomada...tombada...ih!...
tombei.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Natênus

Era a jovem preciosa.

Com sua anágua sua sodomia
Seu mau crepúsculo, seus diabos
Seu passo insolente, seu cabelo negro
Alcatra redonda tão afogueada
Sua ostentação seu pedido de socorro
Mais seus olhos urgentes.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Manhã Manchada de Domingo

Colado ao bom ímã
da cadeira
como um cicio
te ouvi
Colada ao meu lado
como goma de mascar.

Foi como uma manhã
manchada de domingo
eu e teu corpo
na união das notas
um sustenido alegre
entre dó e ré
-Pois é!

sábado, 29 de janeiro de 2011

Nunca Se Está Só


Há fungos nas minhas unhas
Traças nos livros da estante
Corpos estranhos no meu plasma
Bactérias por todo ambiente
E a lembrança tua viva
Na minha mente.

BURLETA

eu rumo
tu "home"
ele rima

nós remamos
nossa sobre
vida.

ATITUDE

As pessoas estão aí
diariamente
a me exigir uma postura:
clientes, filhos, dona Maria.
E eu aqui
levianamente
a escrever poesia.

Apneia Lúdica


soltei meu blenny no mar
e ele partiu como um agulhão arrojado
migrando contra o novelo das algas

voltou um tempo depois
balançando a cauda, todo alegrinho...

tinha encontrado em águas profundas
as gretas matizadas nos búzios de vários mexilhões



ANÚNCIOS (DES)CLASSIFICADOS


Doa-se

um coração arranhado
ainda em bom estado
precisando de reparos.


Recompensa-se

a quem denunciar
aquele que roubou
meu primeiro amor.


Precisa-se

de mulher menina
de menina mulher
de amor adrenalina.


Admite-se

moça grafiteira
boa de "spray"
pr'a pichar meu coração.



Doa-se

rima impossível
em verso urbano
poesia Lutano.


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

OFICINA

Crédito: http://fenix-under.blogspot.com/2008_12_01_archive.html
 

Esculpo sua imagem plástica
em relevo total

Não existe coifa, bosquejo ou croqui.
Muito menos ela percebe

Da mesma forma não lhe brindarei a composição
(como sempre interina)

Apesar disso há movimento!

Saliente-se a argila das ancas
Mãos e joelhos em tetrápode
As aréolas investem sobre montanhas

Minha mente cinzela estéril.

 

sábado, 18 de dezembro de 2010

PENSAMENTO

O pensamento tem
processo
molde
planos
ideia
vontade
asas
raízes
profundidade
dúvidas
ódio
imagem
consciência
essência
química
latência
planos
algoritmo
sobrenome
código
abstração
fugas
incoerência
aedo
o pensamento não tem soss(ego)

sábado, 20 de novembro de 2010

ENLEIO



ENLEIO

A casa, o covil. Local de abate. Os acadêmicos vivendo para o embate, para o recreio, para as tragadas. Dúvidas e dúvidas, soluções, soluções, conversas de almas, estradas, rezas, seminários, velórios, campanhas de vacinação, trilhos de trem, mandacaru, quermesses, ar viciado, aquários e refletores, vitrola inclinada, biséis, colchões, tilintar de vidros, transes e baforadas soltas pelas janelas, estendendo, rumo aos céus, o intervalo-tempo vertical da casa. Rosa, decotada, vestida de rosa, os pelos negros molhados, traz no sorriso a metáfora da grande sacerdotisa. Por todos os lados, adornando-lhe o corpo, mistérios, e tantos desejos contidos que quase parecem sonhos (ou tristonhos?...). Estendi o tapete vermelho sobre a lama da rua. Os acúleos afiados, no corpo do cactos, pareciam costado ao vento, encastoavam-se firmes em Rosa. No interior do quarto, num colchão sanhudo, a dinâmica de grupo da vida real. O sol de setembro não saiu por completo, alguma nesga de madrugada resta no quintal. Ainda consigo sentir o gosto de Rosa, menta-corola; olhos probos negros, como jamais vi, meio cordeiro meio raposa. Bilhas de hematita. (...) Feliz por qualquer motivo, presença constante, sonhada, as pernas vivas.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

EFEITO ROSA PELE

No quarto
o faro aguça
elegante nuca
de boa anca
e esmiúça à vontade:
puro quilate

Beijo no peito
(leito)
desejo satisfeito

Carne machuca
Rosa pele
argila quentura
escultura

sábado, 18 de setembro de 2010

Canção do Exílio Hodierno


Minha terra tem Mangueira
Onde canta o camburão
No tempo em que sabiá
Foi pra gaiola - au revoir !

Ficou nervoso o cidadão
Ficou tensa a autoridade
Nervos à flor da pele
Não é flor que se cheire...

Endolar papéis, à noite
mais rajadas vêm de lá
minha terra tem Mangueira
onde canta o camburão

Minha terra sem pudores
muito sangue pelo chão
endolar papéis, à noite
mais desterro encontro lá
minha terra tem Mangueira
onde canta o camburão

Permita-me, Deus, a vida
sem o esmo projetil de lá
sem que eu veja os horrores
dos coturnos que andam cá
Qu'inda pisam em folhas secas,
Caídas de uma mangueira...



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ROSA


Não dá para te esquecer:
Abro o livro
Guimarães é rosa
Passeio pela "Vila"
Noel é rosa
Cartola percebeu que
...as rosas não falam
Drummond acreditava na
rosa do povo
Para Vinícius, a rosa
era de Hiroxima
rock, poesia e cor
na rosa de Saron.
Só eu não tenho a flor!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cheiro da Noite


De grinalda branca
na calada da noite
a dama-da-noite exala

Caos Aéreo

Vento de agosto
a pipa sem plano de voo
colide no fio